Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

...

O remate de futebol: caracterização biomecânica e considerações para o treino da força rápida

Introdução

    O remate é um gesto técnico de grande complexidade motora que necessita de estar bem ajustado às variáveis do jogo, devendo realizar-se no local e momento adequados, além de exigir um nível elevado de força explosiva (Alcalde 1991, citado por Soares, 1995). Deve por isso mesmo ser encarado como um sistema aberto e esta noção deve emergir nos seus diferentes estudos, sabendo-se à priori que "no futebol não é possível estandardizar as acções dos jogadores e muito menos a sua sequência" (Garganta, 1999).

    Segundo Morin (2003), da noção de sistema advêm uma unidade complexa, um todo que não se reduz à soma das suas partes constituintes. O sistema aberto está na origem de uma noção de termodinâmica cuja existência e cuja estrutura dependem de uma alimentação exterior não apenas material/energética mas também organizacional/informacional (Morin, 2003). No jogo "as equipas funcionam num registo de uma termodinâmica do não-equilibrio, pois só assim é possível desenvolver mecanismos de auto-organização que criem estrutura e sentido a partir da aleatoriedade. (…) As equipas são "estruturas dissipativas" na medida em que se desenvolvem longe-do-equilibrio" (Garganta & Cunha e Silva, 2000).

    Morin (2003) refere que um sistema fechado está em estado de equilíbrio. O futebol enquanto sistema aberto implica um "desequilíbrio do fluxo energético que o alimenta, e, sem esse fluxo, haveria desregulação organizacional provocando rapidamente enfraquecimento" (Morin, 2003). Este autor refere que num primeiro sentido, o desequilíbrio que alimenta permite ao sistema manter-se em aparente equilíbrio, quer dizer, em estado de estabilidade e de continuidade, e este aparente equilíbrio só pode degradar-se se for abandonado a ele próprio, ou seja, se houver fecho do sistema. Este autor refere ainda que neste estado, firme, constante e no entanto frágil, steady-state, as estruturas permanecem as mesmas (no caso do remate de futebol, o padrão geral de execução motora) mas os constituintes são mutáveis (no caso do nosso exemplo, a forma externa variável e adaptada ao contexto).

    Ao falarmos de remate no futebol estamos a falar implicitamente do seu objectivo, o golo. É em função das situações (modelação aberta) que o remate se vai materializar nas diferentes variantes do seu gesto técnico. Garganta e Cunha e Silva (2000) reportam-se ao conceito de ilhotas de determinismo (que podemos associar por exemplo ao remate de futebol) no indeterminismo global do jogo, a que está associado um sistema caótico. De uma forma empírica sabemos que próximo da sua noção de eficácia encontramos as de velocidade da bola e colocação. Cabri et al (1998) referem que os jogadores para além da sua superioridade técnica, têm valores de força superiores aos não jogadores, ao nível da performance para o remate, salientando que a influência do treino específico é o responsável por estas diferenças de força. Estes autores demonstram que os jogadores de futebol apresentam uma melhor performance no remate não só pelas suas capacidades e habilidades técnicas mas também por um uso mais eficiente do sistema muscular. Segundo Cabri et al. (1998), as correlações com a performance do remate demonstram que melhor força no ciclo de alongamento / encurtamento dos quadricípedes produzem uma melhor performance no remate. De Proft et al (1988) referem correlações significativas entre a performance do remate e a força concêntrica dos extensores do joelho e a força excêntrica dos flexores.

    A capacidade motora Força, necessária para o movimento humano e, de uma forma geral para a execução de toda e qualquer técnica desportiva, não aparece no Futebol sob uma forma "pura", mas combinada com outras capacidades (Silva, 1990). Para responder com eficácia às exigências e diferentes solicitações do jogo, o futebolista necessita de uma notável capacidade de força explosiva (Bauer & Ueberle, 1988), particularmente ao nível dos membros inferiores (Bosco, 1994). A capacidade de um jogador exercer força durante um jogo de Futebol não depende somente da força dos músculos implicados no movimento, mas é também influenciada pela capacidade de coordenar a acção dos músculos no momento apropriado (Bangsbo, 1997).

    Para entender "os factores que limitam o desenvolvimento da potência num movimento de Futebol, introduzem-se três classificações de força: a Força Básica; Coordenação da Força e Força no Futebol" (Bangsbo, 1997). No entender deste autor, chamamos Força Básica à força dos grupos musculares implicados num determinado movimento, quando os músculos se contraem de uma forma similar ao que fazem durante os movimentos naturais. A Coordenação da Força está associada à capacidade de um jogador coordenar os diferentes grupos musculares num movimento utilizando, a Força Básica. A Força no Futebol associa-se à quantidade de Força produzida num movimento específico de Futebol, como por exemplo um remate (Bangsbo, 1997).

    A capacidade de Força Explosiva parece constituir-se como uma das bases fundamentais para a qualidade das acções a desencadear pelo futebolista (Luhtanen, 1984) e uma das características mais importantes do jogo de Futebol quando essas acções se referem à solicitação dos membros inferiores (Garganta, 1991), sendo a elasticidade muscular uma das qualidades fisiológicas mais interessadas (Bosco, 1985, citado por Garganta, 1991).

    Weineck (1994) define força explosiva como sendo a capacidade que o sistema neuro-muscular tem de superar resistências com a maior velocidade de contracção possível. Zatsiorski (1971) citado por Harre e Lotz (1986), considera a força explosiva como a capacidade que permite obter valores elevados de força num intervalo curto de tempo. É assim a forma de manifestação da força mais específica dos JDC, uma vez que permite ao jogador a rápida e eficaz execução de diversas acções de natureza técnica (Faina et al., 1988). Existe uma diversidade de designações terminológicas atribuídas a esta forma de manifestação da força. A força explosiva, para alguns autores, surge designada por força rápida ou por força dinâmica de máxima expressão. Autores tais como Bührle e Schmidtbleicher (1981), Bührle (1985) citado por Garganta (1991) ou Harre e Lotz (1986), consideram a força explosiva como uma das componentes da estrutura da força veloz, a par da força máxima e da força inicial, isto é, consideram a força explosiva como subcategoria da força veloz.

    Estudos efectudos por De Proft et al (1988) demonstram que o treino da força, no futebol, melhora a performance do remate devido a uma melhoria na força. No entanto concluem que o desenvolvimento das habilidades técnicas (ou controlo neuromuscular) é o factor predominante no remate de futebol e na sua performance.


A acção de remate

    Segundo Bosco (1994), um jogador de alto nível imprime uma elevada velocidade à bola, situando ao máximo as velocidades angulares do músculo e da perna, com alterações contínuas de forças e de momentos, antes que o pé contacte com a bola, havendo um recrutamento dos diferentes grupos musculares com uma sincronização espaço-temporal que depende da capacidade individual, de decisão, técnica pessoal e que destrinça um bom jogador de um medíocre.

    O padrão de movimento da acção de remate é, geralmente, aceite como uma acção encadeada de movimentos, nos quais, o segmento proximal (anca) inicia o movimento, causando aos restantes segmentos distais ("coxa", "perna" e "pé"), progressivamente, uma maior aceleração no momento que precede o impacto do pé na bola (Lees & Nolan, 1998).

    Os músculos da anca, tal como sustentou Narici et al. (1988), desempenham um papel fundamental na acção de remate uma vez que o movimento, e a posterior transferência do momento, se iniciam na anca.

    É comummente aceite que os atletas que conseguem imprimir maior velocidade à bola, são aqueles que transmitem maior força e/ou energia e/ou potência à bola. Considerando o facto de se conseguir imprimir maior velocidade à bola com o pé dominante. Dörge (2002) sugere que o membro inferior a que os jogadores usualmente recorrem para rematar, é a aquele que apresenta uma melhor coordenação intra e intermuscular. Assim, é de esperar que os jogadores apresentem melhores resultados quando realizam a acção de remate com o membro inferior dominante. Os melhores valores da eficácia mecânica e de precisão do remate obtém-se quando a velocidade da bola alcança 80% da velocidade máxima (Bosco, 1994).


Membro inferior dominante (actividade muscular)

    Segundo Howe (1996, citado por Sousa, 2002), a acção de remate com o pé é complexa e pode ser dividida em 4 fases: (1) movimento da coxa e da perna à retaguarda; (2) rotação externa (lateral) da coxa e da perna que resulta flexão da anca; (3) aumento da velocidade angular da perna, com desaceleração da coxa; (4) após a bola deixar de estar em contacto com o pé. Segundo Howe (1996, citado por Sousa, 2002), durante a fase um, a anca correspondente à perna que remata é rapidamente estendida pela acção dos glúteos e a pélvis roda para trás. O joelho é flectido pela acção dos isquiotibiais e o tibial anterior flecte o tornozelo. Esta acção é limitada pelos flexores da anca e adutores, que frequentemente ficam demasiado distendidos em muitos jogadores. Quanto mais difícil o remate, maior a pressão exercida nestes músculos. Durante a fase dois, o psoas-ilíaco contrai e ocorre a flexão da anca para mover a coxa e a perna para a frente, rodando a pélvis também para a frente. A fase três envolve a acção dos isquiotibiais para promoverem a desaceleração da coxa, enquanto os quadricípites estendem rapidamente a articulação do joelho. A posição da articulação do tornozelo durante o contacto com a bola depende muito do tipo de remate realizado. Adicionalmente, os adutores irão contrair-se para traccionar a perna para a frente do corpo. Isto é particularmente relevante durante a execução de determinados tipos de remate, nomeadamente em remates com a bola situada em posições algo laterais relativamente ao corpo do jogador. A fase quatro começa depois da bola ter perdido o contacto com o pé. A perna e a coxa irão então continuar o movimento de acordo com o momento da coxa, perna e pé. Segundo De Proft et al. (1988b, citado por Sousa, 2002), isto causa uma tensão nos músculos antagonistas destas acções, especialmente nos isquiotibiais.

    Os músculos do MI contrário ao que remata agem de uma forma similar à fase de corrida. Contudo, actuam principalmente para estabilizar o corpo, de forma a proporcionar uma plataforma estável na qual o MI que remata possa actuar. Este MI está usualmente, durante o remate, em abdução e rotação. Os músculos dos braços e do tronco desempenham um papel também importante, uma vez que trabalham para manter a posição e o equilíbrio necessários e para proporcionar um contrabalanço à perna que remata, o que possibilita maior controlo e velocidade no remate (Howe, 1996, citado por Sousa, 2002).

    De acordo com Luhtanen (1994), os músculos flexores da anca assumem uma acção determinante durante a fase do balanço do membro inferior até o pé embater na bola. A contracção destes músculos, tem como objectivo, numa primeira fase, frenar o movimento para trás do membro inferior e, numa segunda fase, acelerar a coxa para levar o pé a embater na bola (Robertson & Mosher 1985; segundo Luhtanen, 1994).

    A contracção dos músculos agonistas inicia o movimento em cada uma das articulações. Todavia estes músculos tornam-se antagonistas na redução do movimento angular rápido, nas articulações, no momento anterior ao impacto do pé com a bola (De Proft et al. 1988). No momento anterior ao do embate do pé na bola, os músculos extensores (ísquio-tibiais) da anca assumem um papel dominante, levando a coxa e a articulação do joelho a abrandar a velocidade e, até mesmo, a parar em alguns jogadores (Luhtanen, 1994).

    Luhtanen (1994) refere que os músculos extensores do joelho actuam de forma rápida e breve para encurtar e causar redução na extensão do joelho (ângulo coxa-perna). Menciona ainda, que os músculos flexores do joelho se tornam, rapidamente, dominantes no momento anterior ao contacto com a bola, actuando excentricamente para reduzir a extensão do joelho. Alega ainda que estes resultados são interessantes, uma vez que se esperaria uma actividade de extensão do joelho ao longo do movimento de remate. Contudo, nenhuma actividade de extensão do joelho foi encontrada no momento anterior ao contacto do pé com a bola (Robertson & Mosher, 1985, citado por Luhtanen, 1994).

    No que se refere ao padrão de recrutamento dos músculos, De Proft et al. (1988b) sugerem que a actividade dos quadricípedes, na fase de balanço atrás do membro inferior, apresenta uma actividade antagonista ao movimento, o mesmo acontecendo com os ísquio-tibiais na fase de balanço à frente do membro inferior. A esta actividade muscular os referidos autores designaram de "paradoxo do futebol" (soccer paradox). Estas constatações foram corroboradas mais tarde por Örchard et al (2002).

    De Proft et al (1988b) referem que na actividade muscular do remate, tanto os agonistas como os antagonistas demonstram altos níveis de actividade. Os jogadores de futebol possuem menor actividade muscular geral que os não jogadores, na execução deste gesto técnico, embora com maior actividade antagonista, o que sugere que os antagonistas são músculos sinergideos do movimento, apesar do trabalho excêntrico, tornando-se importantes na definição e controle do padrão de remate. Sugerem ainda uma cooperação agonista - antagonista não somente baseada na força dos agonistas e no grau de elasticidade dos antagonistas, mas numa sincronização da força e flexibilização tanto de agonistas e antagonistas.

 

Pedro Santos*
pedrosantos@bragatel.pt  
Pedro Silva**
s_pedro@sapo.pt  
Nelson Jardim***
neljardim@netmadeira.com

*Licenciado em Desporto e Educação Física
Mestrando em Treino de Alto Rendimento
**Licenciado em Educação Física e Desporto
Mestrando em Treino de Alto Rendimento
***Licenciado em Desporto e Educação Física
Treinador de Futebol - Nível I
(Portugal)

in, http://www.efdeportes.com/efd72/remate.htm

publicado por training-striker às 17:06
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007

Talento = Dom?

“Se o talento não é apenas um dom, mas sim a natural consequência de muito trabalho, há que trabalhar os atletas a fim que sejam os melhores.”

 

O objectivo do desporto de alta competição, é vencer! O objectivo de um clube de futebol, é vencer! Para vencer é preciso, marcar um maior numero de golos do que o adversário! Para tal, é preciso ter bons marcadores de golos. Como criá-los?

 

Em primeiro lugar é preciso perceber, toda estrutura necessária para ser um bom finalizador. E para cada sistema táctico, as características físico/psíquicas de um finalizador podem ser diversas. Assim, conforme as necessidades de um técnico, poderemos adaptar um finalizador.

 

Por exemplo:

Porque Pauleta (melhor marcador de sempre da selecção portuguesa) não atinge os objectivos, que lhe são destinados nas fases finais do campeonato europeu ou do mundo, sendo ele um brilhante finalizador?

Respostas possíveis:

*Sistema táctico.

*Pressão mental.

*Pressão física.

*Falta de qualidade.

*Preparação deficiente.

Na minha opinião, as respostas que mais se ajustam são, o sistema táctico em que Portugal joga, pois não se adequa às suas características físico/psíquicas. Também deve-se ter em conta a preparação deficiente, pois mesmo que Pauleta não se adapta-se ao estilo de jogo de Portugal, frente às equipas de qualidade equivalentes, seria possível treiná-lo, para que este pudesse exercer a sua função eficientemente (marcar golos). Assim, se Pauleta tivesse sido “moldado” para jogar no sistema táctico de Scolari na fase final do mundial, sem duvida que Portugal teria maiores hipóteses de ter chegado à final.

 

Hoje limitamo-nos a criar esboços de treinos, parecidos aos dos jogos, obrigando o atleta a repetir determinada acção, que por acumulação e repetição do exercício, espera-se que este vá ter sucesso no jogo. Acredito na automatização, mas isso não basta, é preciso “moldar o atleta” a possíveis cenários.

 

Por exemplo:

Treino de finalização. Neste exercício o avançado terá de “fintar/driblar” o defesa e depois terá de finalizar, com o obstáculo de um guarda-redes. Este é um exercício rico na diversidade de funções, que o avançado terá de praticar, aperfeiçoando as suas características físico/psíquicas, preparando-o para o jogo. Aqui o atleta fica preparado a fintar um adversário e depois a finalizar. Mas para tal é preciso que uma equipa esteja muito perto da área para que isso possa acontecer. Hoje em dia, com o aperfeiçoamento dos sistemas tácticos, dificilmente uma avançado encontra apenas um defesa no seu caminho. A marcação deixou de ser apenas homem a homem, mas também de uma marcação à zona. Permitindo outro defesa cobrir o espaço.

 

Não existe uma receita de um ponta-de-lança ideal, pois é praticamente impossível, um atleta possuir todas as qualidades. Se o atleta for alto, deve-se explorar o jogo aéreo. Se o jogador for baixo e rápido, deveremos explorar um jogo mais rasteiro.

publicado por training-striker às 22:59
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

.Treino Avançados

.pesquisar

 

.Novembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. ...

. Talento = Dom?

. Introdução ao tema de fin...

.arquivos

. Novembro 2007

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds